Março é marcado pela campanha do Março Lilás, que chama atenção para a saúde feminina. Nos consultórios e nas redes sociais, cresce a percepção de que cada vez mais mulheres convivem com Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), endometriose, TPM intensa, ansiedade e compulsão alimentar. Mas o que está por trás desse aumento? E qual é o papel da alimentação nesse cenário?

Março Lilás – Foto: divulgação
Números que acendem o alerta
A SOP atinge cerca de 6% a 13% das mulheres em idade reprodutiva, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Já a endometriose afeta aproximadamente 10% das mulheres e meninas em idade fértil no mundo, o que representa mais de 190 milhões de pessoas, também de acordo com a OMS. No Brasil, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) estima que milhões de mulheres convivam com sintomas de TPM intensa, embora nem todos os casos sejam diagnosticados formalmente como Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM).
Além disso, dados da Organização Mundial da Saúde apontam que mulheres apresentam prevalência maior de transtornos de ansiedade em comparação aos homens, condição que frequentemente se associa a alterações hormonais e episódios de compulsão alimentar. Especialistas explicam que parte do aumento dos diagnósticos pode estar relacionada à maior conscientização e acesso à informação. Mas o estilo de vida moderno também entra na equação.
Ambiente inflamatório e resistência à insulina
De acordo com a Dra. Jaqueline Silva, o padrão alimentar atual é rico em ultraprocessados, açúcar e gorduras trans, e favorece um estado de inflamação crônica de baixo grau no organismo. Esse cenário impacta diretamente a resistência à insulina, um dos principais mecanismos envolvidos na SOP. A insulina elevada estimula a produção de andrógenos pelos ovários, o que pode levar a irregularidade menstrual, acne, queda de cabelo e dificuldade para engravidar.
“A insulina é um dos hormônios mais impactados pela alimentação. Quando há excesso de açúcar e baixa ingestão de fibras e proteínas, os picos glicêmicos se tornam frequentes, o que desregula todo o eixo hormonal”, explica Jaqueline.
Estudos publicados em periódicos internacionais indicam que mulheres com SOP apresentam maior prevalência de resistência à insulina, mesmo quando não estão acima do peso.
Intestino e hormônios: uma relação direta
Outro ponto que ganha destaque nas pesquisas recentes é o papel do intestino na saúde hormonal. O chamado “estroboloma”, conjunto de bactérias intestinais envolvidas na metabolização do estrogênio, influencia diretamente na eliminação adequada deste hormônio. Alterações na microbiota podem aumentar a recirculação estrogênica, intensificando sintomas como cólicas, inchaço e alterações de humor. Além disso, o eixo intestino-cérebro interfere na produção de neurotransmissores como serotonina e dopamina, que impactam ansiedade, compulsão alimentar e sintomas de TPM.
Estilo de vida: sono, estresse e sobrecarga
A alimentação não atua sozinha. Privação de sono, excesso de estresse, sedentarismo e alta carga mental elevam o cortisol, hormônio relacionado ao estresse, e contribuem para o desequilíbrio hormonal.
“O hormônio não funciona isolado. Ele responde ao ambiente. Se a mulher dorme pouco, pula refeições e vive sob estresse constante, o corpo entende que está em ameaça”, afirma a especialista.
Esse estado pode alterar o eixo hipotálamo-hipófise-ovário, responsável pela regulação do ciclo menstrual.
Erros comuns que pioram sintomas
Entre os principais erros alimentares observados estão, pular refeições, excesso de açúcar, baixa ingestão de proteína, pouca fibra, dietas radicais e restritivas. Dietas muito restritivas podem elevar o cortisol, reduzir a disponibilidade energética e até suspender a menstruação em casos mais extremos. Cortes severos de carboidrato, quando prolongados, também podem impactar o ciclo menstrual.
Um padrão alimentar protetor
Especialistas defendem que o foco não deve ser restrição, mas consistência. Um padrão alimentar baseado em comida de verdade, com proteína em todas as refeições, vegetais variados, frutas, leguminosas, gorduras boas como azeite e sementes e fontes de ômega-3, tende a favorecer o equilíbrio hormonal.
“O primeiro passo não é cortar tudo. É organizar o básico: regular horários, melhorar qualidade da alimentação, dormir melhor e cuidar do intestino. Hormônio responde ao ambiente”, orienta a nutricionista.
Informação como ferramenta de autonomia
O aumento dos diagnósticos também reflete mais mulheres buscando respostas para sintomas que antes eram normalizados. No mês dedicado à saúde feminina, especialistas reforçam que alimentação não substitui acompanhamento médico, mas é parte fundamental da estratégia de cuidado. Entre exames, consultas e tratamentos, o que vai ao prato pode ser um dos pilares mais acessíveis, e muitas vezes subestimados, da saúde hormonal da mulher.


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